sexta-feira, 18 de novembro de 2011


Soneto XLIII

Un signo tuyo busco en todas las otras,
en el brusco, ondulante río de las mujeres,
trenzas, ojos apenas sumergidos,
pies claros que resbalan navegando en la espuma.

De pronto me parece que diviso tus uñas
oblongas, fugitivas, sobrinas de un cerezo,
y otra vez es tu pelo que pasa y me parece
ver arder en el agua tu retrato de hoguera.

Miré, pero ninguna llevaba tu latido,
tu luz, la greda oscura que trajiste del bosque,
ninguna tuvo tus diminutas orejas.

Tú eres total y breve, de todas eres una,
y así contigo voy recorriendo y amando
un ancho Mississippi de estuario femenino.

Pablo Neruda

terça-feira, 15 de novembro de 2011


Amor! (¡Amor!)

Oh, eterno amor, que en tu inmortal carrera
das a los seres vida y movimiento,
con qué entusiasta admiración te siento,
aunque invisible, palpitar doquiera!

Esclava tuya, la creación entera
se estremece y anima con tu aliento;
y es tu grandeza tal, que el pensamiento
te proclamara Dios si Dios no hubiera.

Los impalpables átomos combinas
con tu soplo magnético y fecundo:
tú creas, tú transformas, tú iluminas;

y en el cielo infinito, en el profundo
mar, en la tierra atónita dominas,
¡amor, eterno amor, alma del mundo!

Gaspar Núñez de Arce

sexta-feira, 11 de novembro de 2011



Soneto LXXXIII

Es bueno, amor, sentirte cerca de mí en la noche,
invisible en tu sueño, seriamente nocturna,
mientras yo desenredo mis preocupaciones
como si fueran redes confundidas.

Ausente, por los sueños tu corazón navega,
pero tu cuerpo así abandonado respira
buscándome sin verme, completando mi sueño
como una planta que se duplica en la sombra.

Erguida, serás otra que vivirá mañana,
pero de las fronteras perdidas en la noche,
de este ser y no ser en que nos encontramos

algo queda acercándonos en la luz de la vida
como si el sello de la sombra señalara
con fuego sus secretas criaturas.

Pablo Neruda

quinta-feira, 10 de novembro de 2011



As Sem-Razões Do Amor

Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça E com amor não se paga.
Amor é dado de graça, É semeado no vento,
Na cachoeira no eclipse. Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, 
Nem se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte,
E da morte vencedor, Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade


Coroai-me de Rosas

Coroai-me de rosas, 
Coroai-me em verdade, 
De rosas — 

Rosas que se apagam 
Em fronte a apagar-se 
Tão cedo! 

Coroai-me de rosas 
E de folhas breves. 
E basta. 

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)


segunda-feira, 7 de novembro de 2011



Soneto LXXIX

De noche, amada, amarra tu corazón al mío
y que ellos en el sueño derroten las tinieblas
como un doble tambor combatiendo en el bosque
contra el espeso muro de las hojas mojadas.

Nocturna travesía, brasa negra del sueño
interceptando el hilo de las uvas terrestres
con la puntualidad de un tren descabellado
que sombra y piedras frías sin cesar arrastrara.

Por eso, amor, amárrame el movimiento puro,
a la tenacidad que en tu pecho golpea
con las alas de un cisne sumergido,

para que a las preguntas estrelladas del cielo
responda nuestro sueño con una sola llave,
con una sola puerta cerrada por la sombra.

Pablo Neruda


Inconfesso Desejo 


Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo


Carlos Drummond de Andrade


Vôo

Alheias e nossas as palavras voam. 
Bando de borboletas multicores, as palavras voam 
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, 
as palavras voam. 
Viam as palavras como águias imensas. 
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, 
em redor de nós as palavras voam. 
E às vezes pousam.

Cecília Meireles

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


Sorriso Audível das Folhas

Sorriso audível das folhas 
Não és mais que a brisa ali 
Se eu te olho e tu me olhas, 
Quem primeiro é que sorri? 
O primeiro a sorrir ri. 

Ri e olha de repente 
Para fins de não olhar 
Para onde nas folhas sente 
O som do vento a passar 
Tudo é vento e disfarçar. 

Mas o olhar, de estar olhando 
Onde não olha, voltou 
E estamos os dois falando 
O que se não conversou 
Isto acaba ou começou? 

Fernando Pessoa

segunda-feira, 31 de outubro de 2011


Queria experimentar no seu corpo 
todos os lugares do mundo juntos

Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.

Cristiane Neder

sábado, 29 de outubro de 2011


Ontologia do Amor

Tua carne é a graça tenra dos pomares 
e abre-se teu ventre de uma a outra lua; 
de teus próprios seios descem dois luares 
e desse luar vestida é que ficas nua. 

Ânsia de voo em asas de ficar 
de ti mesma sou o mar e o fundo. 
Praia dos seres, quem te viajar 
só naufragando recupera o mundo. 

Ritmo de céu, por quem és pergunta 
de uma azul resposta que não trazes junta 
vitral de carne em catedral infinda. 

Ter-te amor é já rezar-te, prece 
de um imenso altar onde acontece 
quem no próprio corpo é céu ainda. 

Vítor Matos e Sá

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 

Manuel António Pina

sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Depois de Te Haver Criado, 
a Natureza Pasmou

A mãe, que em berço dourado 
Pôs teu corpo cristalino, 
É superior ao Destino, 
Depois de te haver criado. 
Quando Amor, o Nume alado, 
Tua infância acalentou, 
Quando os teus dias fadou, 
Minha Lília, minha amada, 
A mãe ficou encantada, 
A Natureza pasmou. 

Deve dar breve cuidado, 
Motivar grande atenção, 
A um Deus a criação, 
Depois de te haver criado. 
Deve de ser refinado 
O engenho que ele mostrar 
Desde o ponto em que criar; 
Cuide nisto a omnipotência, 
Porque, ao ver a sua essência, 
A Natureza pasmou. 

Ao mesmo Céu não é dado 
(Bem que tanto poder goza) 
Criar coisa tão formosa 
Depois de te haver criado. 
Naquele instante dourado, 
Em que teus dotes formou, 
Apenas os completou, 
Arengando-lhe o Destino, 
Em um êxtase divino 
A Natureza pasmou. 

O Céu nos tem outorgado 
Quanto outorgar-nos podia; 
O Céu que mais nos daria 
Depois de te haver criado? 
Ninfa, das Graças traslado, 
Ninfa, de que escravo sou, 
Jove em ti se enfeitiçou, 
Cheio de espanto e de gosto, 
E absorta no teu composto 
A Natureza pasmou. 

O teu rosto é adornado 
Dos prodígios da beleza; 
Foi um deus a Natureza 
Depois de te haver criado. 
Pôs em teu rosto adoçado 
O que nunca o Céu formou; 
Ela a Jove envergonhou 
Nesse deleitoso espanto, 
E de ter subido a tanto 
A Natureza pasmou. 

Todo o concílio sagrado 
Do almo Olimpo brilhador, 
Subiu a grau superior 
Depois de te haver criado. 
Da meiga Vénus ao lado 
O teu ente a nós baixou, 
Ente que Jove apurou, 
Ente de todos diverso; 
Assombrou-se o Universo, 
A Natureza pasmou. 

Bocage

quinta-feira, 6 de outubro de 2011


Escultor

En mis manos tu barro, te moldeo
con ternura. Mi soplo y mi caricia
dieron ser a la curva que te inicia.
Si carne te pensé, viento te veo. 

Vaciada ya tu forma, me recreo,
te atesoro. No culpes mi codicia.
Alta puse la mira: tu primicia
esculpida a cincel en mi deseo. 

Yo, escultor, sólo pido por mi arte
el contemplar mi obra: contemplarte.
Pero tú ya eres tú, aunque eras mía, 

y si una vez te arredra mi egoísmo,
puedes irte si quieres. Me es lo mismo.
Te crearé, de nuevo, cualquier día.

Rafael Guillén

segunda-feira, 3 de outubro de 2011



Soneto 17 

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare

quarta-feira, 14 de setembro de 2011



“Há quem diga que todas as noites são de sonhos...
Mas há também quem diga que nem todas...
Só as de verão...
Mas no fundo isso não tem muita importância...
O que interessa mesmo não são as noites em si...
Mas sim os sonhos...
Sonhos que o homem sonha sempre...
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano...
Dormindo ou acordado...”

William Shakespeare

segunda-feira, 12 de setembro de 2011



Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo


Alice Ruiz

sábado, 10 de setembro de 2011


O amor no éter

Há dentro de mim uma paisagem 
entre meio-dia e duas horas da tarde. 
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, 
entram e não neste lugar de memória, 
uma lagoa rasa com caniço na margem. 
Habito nele, quando os desejos do corpo, 
a metafísica, exclamam: 
como és bonito! 
Quero escrever-te até encontrar 
onde segregas tanto sentimento. 
Pensas em mim, teu meio-riso secreto 
atravessa mar e montanha, 
me sobressalta em arrepios, 
o amor sobre o natural. 
O corpo é leve como a alma, 
os minerais voam como borboletas. 
Tudo deste lugar 
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Adélia Prado

quinta-feira, 8 de setembro de 2011


Filtro

Meu Amor, não é nada: - Sons marinhos 
Numa concha vazia, choro errante... 
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos... 
Não há luz neste mundo que os levante! 

Eu andarei por ti os maus caminhos 
E as minhas mãos, abertas a diamante, 
Hão de crucificar-se nos espinhos 
Quando o meu peito for o teu mirante! 

Para que corpos vis te não desejem, 
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha 
Pra que bocas impuras te não beijem! 

Como quem roça um lago que sonhou, 
Minhas cansadas asas de andorinha 
Hão-de prender-te todo num só vôo... 

Florbela Espanca

segunda-feira, 5 de setembro de 2011


Pela Luz dos Olhos Teus 

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

Vinicius de Moraes

sábado, 3 de setembro de 2011


Poema 3

Ah vastedad de pinos, rumor de olas quebrándose,
lento juego de luces, campana solitaria,
crepúsculo cayendo en tus ojos, muñeca,
caracola terrestre, en ti la tierra canta!
En ti los ríos cantan y mi alma en ellos huye
como tú lo desees y hacia donde tú quieras.
Márcame mi camino en tu arco de esperanza
y soltaré en delirio mi bandada de flechas.
En torno a mí estoy viendo tu cintura de niebla
y tu silencio acosa mis horas perseguidas,
y eres tú con tus brazos de piedra transparente
donde mis besos anclan y mi húmeda ansia anida.
Ah tu voz misteriosa que el amor tiñe y dobla
en el atardecer resonante y muriendo!
Así en horas profundas sobre los campos he visto
doblarse las espigas en la boca del viento.

Pablo Neruda

terça-feira, 30 de agosto de 2011



AZUL DE TI

Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.

Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.

Es como un horizonte de violines
o un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.

El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.

Eduardo Carranza

quinta-feira, 25 de agosto de 2011


Venturosa de sonhar-te

Venturosa de sonhar-te, 
à minha sombra me deito. 
(Teu rosto, por toda parte, 
mas, amor, só no meu peito!)

–Barqueiro, que céu tão leve! 
Barqueiro, que mar parado! 
Barqueiro, que enigma breve, 
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo: 
e o que vou pagando ao vento 
para levar-te comigo 
é suspiro e pensamento.

–Barqueiro, que doce instante! 
Barqueiro, que instante imenso, 
não do amado nem do amante: 
mas de amar o amor que penso!

Cecília Meireles

segunda-feira, 22 de agosto de 2011



Amor

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir! 
Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela! 
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!


Álvares de Azevedo

quinta-feira, 18 de agosto de 2011


Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, 
Esquece a tua alma. 
A alma é que estraga o amor. 
Só em Deus ela pode encontrar satisfação. 
Não noutra alma. 
Só em Deus - ou fora do mundo. 

As almas são incomunicáveis. 
Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo, 
porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Manuel Bandeira