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segunda-feira, 23 de maio de 2011


Do que Nada se Sabe

A lua ignora que é tranquila e clara 
E não pode sequer saber que é lua; 
A areia, que é a areia. Não há uma 
Coisa que saiba que sua forma é rara. 
As peças de marfim são tão alheias 
Ao abstrato xadrez como essa mão 
Que as rege. Talvez o destino humano, 
Breve alegria e longas odisseias, 
Seja instrumento de Outro. Ignoramos; 
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta. 
Em vão também o medo, a angústia, a absorta 
E truncada oração que iniciamos. 
Que arco terá então lançado a seta 
Que eu sou? Que cume pode ser a meta? 

Jorge Luis Borges

segunda-feira, 29 de novembro de 2010


As Causas

Todas as gerações e os poentes. 
Os dias e nenhum foi o primeiro. 
A frescura da água na garganta 
De Adão. O ordenado Paraíso. 
O olho decifrando a maior treva. 
O amor dos lobos ao raiar da alba. 
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. 
A Torre de Babel e a soberba. 
A lua que os Caldeus observaram. 
As areias inúmeras do Ganges. 
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou. 
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas. 
Os passos do errante labirinto. 
O infinito linho de Penélope. 
O tempo circular, o dos estóicos. 
A moeda na boca de quem morre. 
O peso de uma espada na balança. 
Cada vã gota de água na clepsidra. 
As águias e os fastos, as legiões. 
Na manhã de Farsália Júlio César. 
A penumbra das cruzes sobre a terra. 
O xadrez e a álgebra dos Persas. 
Os vestígios das longas migrações. 
A conquista de reinos pela espada. 
A bússola incessante. O mar aberto. 
O eco do relógio na memória. 
O rei que pelo gume é justiçado. 
O incalculável pó que foi exércitos. 
A voz do rouxinol da Dinamarca. 
A escrupulosa linha do calígrafo. 
O rosto do suicida visto ao espelho. 
O ás do batoteiro. O ávido ouro. 
As formas de uma nuvem no deserto. 
Cada arabesco do caleidoscópio. 
Cada remorso e também cada lágrima. 
Foram precisas todas essas coisas 
Para que um dia as nossas mãos se unissem. 

Jorge Luis Borges

terça-feira, 7 de setembro de 2010


O Apaixonado

Luas, marfins, instrumentos e rosas, 
Traços de Dúrer, lampiões austeros, 
Nove algarismos e o cambiante zero, 
Devo fingir que existem essas coisas. 
Fingir que no passado aconteceram 
Persépolis e Roma e que uma areia 
Subtil mediu a sorte dessa ameia 
Que os séculos de ferro desfizeram. 
Devo fingir as armas e a pira 
Da epopeia e os pesados mares 
Que corroem da terra os vãos pilares. 
Devo fingir que há outros. É mentira. 
Só tu existes. Minha desventura, 
Minha ventura, inesgotável, pura. 

Jorge Luis Borges