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quarta-feira, 4 de abril de 2012


Quando não te Vejo Perco o Siso

Formosura do Céu a nós descida, 
Que nenhum coração deixas isento, 
Satisfazendo a todo pensamento, 
Sem que sejas de algum bem entendida; 

Qual língua pode haver tão atrevida, 
Que tenha de louvar-te atrevimento, 
Pois a parte melhor do entendimento, 
No menos que em ti há se vê perdida? 

Se em teu valor contemplo a menor parte, 
Vendo que abre na terra um paraíso, 
Logo o engenho me falta, o espírito míngua. 

Mas o que mais me impede inda louvar-te, 
É que quando te vejo perco a língua, 
E quando não te vejo perco o siso. 

Luís Vaz de Camões

domingo, 16 de janeiro de 2011


Amor é um Fogo que Arde sem se Ver

Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões

segunda-feira, 8 de novembro de 2010



Lágrimas Tristes 
Tomarão Vingança

Se somente hora alguma em vós piedade 
De tão longo tormento se sentira, 
Amor sofrera, mal que eu me partira 
De vossos olhos, minha saudade. 

Apartei-me de vós, mas a vontade, 
Que por o natural na alma vos tira, 
Me faz crer que esta ausência é de mentira; 
Porém venho a provar que é de verdade. 

Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento 
Lágrimas tristes tomarão vingança 
Nos olhos de quem fostes mantimento. 

Desta arte darei vida a meu tormento, 
Que, enfim, cá me achará minha lembrança 
Sepultado no vosso esquecimento. 

Luís Vaz de Camões