segunda-feira, 4 de abril de 2011


Modo de amar

Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou ateando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.´


Astrid Cabral

sexta-feira, 1 de abril de 2011


Eu Simplesmente Amo-te


Eu amo-te sem saber como, 
ou quando, ou a partir de onde. 
Eu simplesmente amo-te, 
sem problemas ou orgulho: 
eu amo-te desta maneira 
porque não conheço qualquer outra forma 
de amar sem ser esta, 
onde não existe eu ou tu, 
tão intimamente 
que a tua mão sobre o meu peito 
é a minha mão, 
tão intimamente 
que quando adormeço 
os teus olhos fecham-se. 

Pablo Neruda

sábado, 26 de março de 2011


Meu amor

De ti somente um nome sei, amor. 
É pouco, é muito pouco e é bastante 
Para que esta paixão doida e constante 
Dia após dia cresça com vigor! 

Como de um sonho vago e sem fervor 
Nasce uma paixão assim tão inquietante! 
Meu doido coração triste e amante 
Como tu buscas o ideal na dor! 

Isto era só quimera, fantasia, 
Mágoa de sonho que se esvai num dia, 
Perfume leve dum rosal do céu... 

Paixão ardente, louca isto é agora, 
Vulcão que vai crescendo hora por hora... 
O meu amor, que imenso amor o meu!

Florbela  Espanca

sábado, 19 de março de 2011


Amo-te Tanto

Amo-te tanto 
nem sei porquê! 
Que importa o quê 
do meu espanto? 

Que importa o riso 
que me concedes? 
Que me embebedes! 
Que paraíso! 

Indiferente 
quero-te assim. 
- Sê bem de mim, 
de toda a gente... 

Rasgou-se o véu 
do temporal. 
Nem bem nem mal. 
Entras no céu. 

Saúl Dias

segunda-feira, 14 de março de 2011


Magia de la noche

Era la noche cálida como lo son tus ojos,
gruta de magia blanca era la noche.
Era la noche cómplice, bajo qué estrellas rotas
cobijamos el sueño de una noche,
de un verano sin noche, de un instante tan hondo
que era nada la vida aquella noche.
Galerías secretas de tus ojos sin bruma,
su nocturno fulgor, su brillo intacto.
Fresca rama tu risa golpeando mi pecho
en esa abierta herida de la noche.
Temblaban nuestras manos unidas en la noche,
y era noche el perfume de tu pelo,
y dolía mirarte como cuando hace frío
y quemaba en mi noche tu mirada.
Cuando besé tus labios, pareció arder la noche.
Igual que un corazón latió la noche.
y fue la noche nuestra y robamos la noche.
Sigilosa la luna nos seguía los pasos.

Abelardo Linares

quarta-feira, 9 de março de 2011


Los Labios Impacientes...


Los labios impacientes de la noche te sanan mientras abren
el olor de la piedra
te conducen si acosan el alma de la piedra
si el tierno corazón mineral beben
es tu hora es la noche

así, dirás que te han robado como un vino novicio
y te harás piedra aguda como un líquido agudo
limpia como opio de oro
y será s tregua tuya
y alianza

así, dirás que la que es contigo y lleva un aire desigual a
balanza entre estrellas
la idéntica más favorable
tu obra nocturna rara
es la que muestra sonrisa y griterío
palabras como estrellas
y escucha un piano terso como una estrella, estrellas.

Blanca Andreu

terça-feira, 8 de março de 2011


Nem Sempre Sou Igual 
no que Digo e Escrevo

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. 
Mudo, mas não mudo muito. 
A cor das flores não é a mesma ao sol 
De que quando uma nuvem passa 
Ou quando entra a noite 
E as flores são cor da sombra. 
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. 
Por isso quando pareço não concordar comigo, 
Reparem bem para mim: 
Se estava virado para a direita, 
Voltei-me agora para a esquerda, 
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — 
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra 
E aos meus olhos e ouvidos atentos 
E à minha clara simplicidade de alma ... 

Alberto Caeiro ( Fernando Pessoa )

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema. 

Uma árvore está quieta, 
murcha, desprezada. 
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos 
e lhe sopra os dedos, 
ela volta a empertigar-se, renovada. 
E tu, que não sabias o segredo, 
perdes a vaidade. 
Fora de ti há o mundo 
e nele há tudo 
que em ti não cabe. 

Homem, até o barro tem poesia! 
Olha as coisas com humildade. 

Fernando Namora

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011



Noite...

Ó noite, 
coalhada nas formas de um corpo de mulher 
vago e belo e voluptuoso 
num bailado erótico, com o cenário dos astros, 
mudos e quedos. 

Estrelas que as suas mãos afagam 
e a boca repele, 
deixai que os caminhos da noite, 
cegos e retos como o destino, 
suspensos como uma nuvem, 
sejam os caminhos dos poetas 
que lhes decoraram o nome. 
Ó noite, 
coalhada nas formas de um corpo de mulher! 
esconde a vida no seio de uma estrela 
e fá-la pairar, assim mágica e irreal, 
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011


A Voz do Amor

Nessa pupila rútila e molhada, 
Refúgio arcano e sacro da Ternura, 
A ampla noite do gozo e da loucura 
Se desenrola, quente e embalsamada. 

E quando a ansiosa vista desvairada 
Embebo às vezes nessa noite escura, 
Dela rompe uma voz, que, entrecortada 
De soluços e cânticos, murmura... 

É a voz do Amor, que, em teu olhar falando, 
Num concerto de súplicas e gritos 
Conta a história de todos os amores; 

E vêm por ela, rindo e blasfemando, 
Almas serenas, corações aflitos, 
Tempestades de lágrimas e flores... 

Olavo Bilac

domingo, 6 de fevereiro de 2011


Comparar-te a um Dia de Verão?

Comparar-te a um dia de verão? 
Há mais ternura em ti, ainda assim: 
um maio em flor às mãos do furacão, 
o foral do verão que chega ao fim. 
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu; 
outras, desfaz-se a compleição doirada, 
perde beleza a beleza; e o que perdeu 
vai no acaso, na natureza, em nada. 
Mas juro-te que o teu humano verão 
será eterno; sempre crescerás 
indiferente ao tempo na canção; 
e, na canção sem morte, viverás: 
Porque o mundo, que vê e que respira, 
te verá respirar na minha lira. 

William Shakespeare

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


Perfume Exótico

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono, 
Respiro o doce olor do teu colo abrasante, 
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante 
Na auréola de luz d'um triste sol de outono; 

Um éden terreal, uma indolente ilha 
Com plantas tropicais e frutos saborosos; 
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos, 
E mulher's cujo olhar honesto maravilha. 

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas; 
Vejo um porto ideal cheio de caravelas 
Vindas de percorrer países estrangeiros; 

E o perfume subtil do verde tamarindo, 
Que circula no ar e que eu vou exaurindo, 
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros. 

Charles Baudelaire

sábado, 22 de janeiro de 2011


Na Ilha Por Vezes Habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

terça-feira, 18 de janeiro de 2011


Dá-me as Tuas Mãos

As mãos foram feitas 
para trazer o futuro, 
encurtar a tristeza, encher 
o que fica das mãos 
de ontem - intervalos 
(duros, fiéis) das palavras, 
vocação urgente 
da ternura, pensamento 
entreaberto até 
aos dedos longos 
pelas coisas fora 
pelos anos dentro. 

Vítor Matos e Sá

domingo, 16 de janeiro de 2011


Amor é um Fogo que Arde sem se Ver

Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


Delírio

No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios…
Deixa aberta a janela…

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna…
Apaguemos a luz…

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?…

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti….

Guimarães Rosa

domingo, 2 de janeiro de 2011


Romantismo

Seremos ainda românticos
e entraremos na densa mata,
em busca de flores de prata,
de aéreos, invisíveis cânticos.

Nas pedras, à sombra, sentados,
respiraremos a frescura
dos verdes reinos encantados
das lianas e da fonte pura.

E tão românticos seremos,
de tão magoado romantismo,
que as folhas dos galhos supremos
que se desprenderem do abismo

pousarão na nossa memória
- secas borboletas caídas -
e choraremos sua história,
resumo de todas as vidas.

 Cecília Meireles

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010


O Segredo é Amar

O segredo é amar. Amar a Vida 
com tudo o que há de bom e mau em nós. 
Amar a hora breve e apetecida, 
ouvir os sons em cada voz 
e ver todos os céus em cada olhar. 

Amar por mil razões e sem razão. 
Amar, só por amar, 
com os nervos, o sangue, o coração. 
Viver em cada instante a eternidade 
e ver, na própria sombra, claridade. 

O segredo é amar, mas amar com prazer, 
sem limites, fronteiras, horizonte. 
Beber em cada fonte, 
florir em cada flor, 
nascer em cada ninho, 
sorver a terra inteira como o vinho. 

Amar o ramo em flor que há-de nascer, 
de cada obscura, tímida raiz. 
Amar em cada pedra, em cada ser, 
S. Francisco de Assis. 

Amar o tronco, a folha verde, 
amar cada alegria, cada mágoa, 
pois um beijo de amor jamais se perde 
e cedo refloresce em pão, em água! 

Fernanda de Castro

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


Supremo enleio

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão
de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda...

Florbela Espanca

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010


Não Sei se é Amor que Tens 

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges, 
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta. 
Já que o não sou por tempo, 
Seja eu jovem por erro. 
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso. 
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva 
É verdadeira. Aceito, 
Cerro olhos: é bastante. 
Que mais quero? 

Ricardo Reis ( Fernando Pessoa )

sábado, 18 de dezembro de 2010


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive. 

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010


Soneto do Orfeu

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida 

E se ao luar, que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher 

Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita 

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010


Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda